NESTA NOITE DE NATAL, ‘VISTA’ O SEU COMPUTADOR

Relógios e pulseiras inteligentes podem não fazer muito volume embaixo da árvore de Natal, mas qualquer fã de tecnologia ficará muito satisfeito em ganhá-los neste fim de ano. Os produtos são os mais comuns até agora entre os chamados “wearables”, que prometem mudar a forma como as pessoas interagem com a tecnologia ao levar funções do computador a itens como peças de roupa e acessórios.

Tome-se o caso do Moto 360. O relógio inteligente da americana Motorola permite checar a previsão do tempo, ver notificações de mensagens recebidas no celular e traçar rotas, entre outras funções. O dispositivo parece um relógio tradicional, com formato redondo e botão, o que mostra o esforço da indústria para tornar seus produtos mais atraentes ao consumidor. A ideia é conquistar não só os fãs de tecnologia, mas qualquer usuário que acompanhe as tendências da moda.

É curioso que os relógios, que foram abandonados por muita gente com a popularização do celular, sejam agora tão explorados pelos grandes fabricantes. Em parte, isso decorre do fato de que os novos dispositivos vão muito além de mostrar as horas. A finlandesa Polar, tradicional fabricante de medidores de frequência cardíaca, levou essa funcionalidade a relógios como o M400. Com isso, eliminou o uso da faixa que os esportistas eram obrigados a usar ao redor do peito – e que sempre foi motivo de incômodo e reclamação. O aparelho também funciona como GPS para registrar percurso, tempo do exercício etc.

A Microsoft Band vai na mesma linha e ajuda a monitorar a saúde, mas sob o formato de uma pulseira. Com ela, dá para saber como anda a qualidade do sono, contar o número de passos dados, seguir planos de exercícios etc.

Parte desses dispositivos vêm com assistentes pessoais digitais – sistemas que interagem com o usuário e aos quais é possível dar comandos de voz. A Microsoft Band vem com o Cortana, por enquanto disponível só em inglês. O Moto 360 usa o Google Now, que já fala português.

Rapidez é uma exigência na indústria de alta tecnologia. Os “wearables”, que eram uma promessa pouco tempo atrás, já se transformaram numa categoria de consumo. O mesmo pode acontecer com as impressoras 3D. Em tese, essas máquinas podem fazer qualquer coisa ao usar diversos tipos de material para “imprimir” um projeto criado no computador. Primeiro, a impressão 3D chegou ao mundo industrial. Depois, começou a ser adotada por fanáticos por tecnologia. Agora, já tem produtos para o consumidor como a Ekocycle Cube, da 3D Systems. O produto é resultado de uma parceria entre a companhia da Carolina do Sul e a Ekocycle, criada pela Coca-Cola e o músico wil.i.am, do Black Eyed Peas. A aliança tem o objetivo de estimular a manufatura de produtos com base em material reciclável. A Ekocycle Cube usa como matéria-prima um tipo de plástico feito a partir de garrafas PET.

As telas, em seus diversos formatos, continuam sendo uma atração especial. Parece não haver limite para o tamanho das televisões. No ano passado, os maiores modelos chegavam a 80 polegadas. Agora, superam os 100. Tanto a LG como a Samsung – ambas coreanas – lançaram recentemente modelos de 105 polegadas. O aparelho da Samsung tem tela curva, que dá sensação de imersão ao espectador, e qualidade de imagem 4K (ou quatro mil pixels), oito vezes melhor que o Full HD. A LG trouxe um modelo 5K, cuja tela também é curva mas tem um formato esticado, mais parecido com uma tela de cinema. Mas Papai Noel tem de ser muito generoso. O aparelho da LG custa R$ 300 mil. O da Samsung sai por R$ 500 mil.

No universo dos smartphones, telas grandes também estão ficando populares. O Mate 7, da chinesa Huawei, tem tela de 6 polegadas, uma das maiores do mercado. O aparelho usa uma versão do sistema operacional Android, do Google, muito bonita e rápida. Adota o padrão 4G; tem sensor biométrico, o que aumenta a segurança das informações; e vem com câmera de 13 megapixels.

No campo dos tablets, a Samsung lançou dois modelos da linha Galaxy Tab S, com telas de 8,4 e 10,5 polegadas. São finos e têm acabamento com bordas douradas, um apelo adicional para quem procura estilo.

Boa parte dessas novidades não está disponível no Brasil ainda. Para obtê-las é preciso comprar no exterior ou em sites internacionais que fazem entregas no país. Em quaisquer dos casos, é preciso ficar atento aos custos. Os preços indicados não incluem o imposto sobre valor adicionado, cobrado nos Estados Unidos, nem a tributação brasileira.

Uma boa notícia para não depender dos importados é que a Go Pro começou a fabricar seus produtos no Brasil. As câmeras compactas da companhia americana tornaram-se uma febre porque podem ser acopladas a capacetes e peças de roupa, o que ajuda a captar imagens em movimento com alta resolução. No recente show do cantor inglês Paul McCartney em São Paulo, havia instruções expressas para os fãs não usarem os bastões que costumam acompanhar a Go Pro. A versão 4, a mais recente, ainda não é produzida no Brasil.

Para os esquecidos, uma sugestão é comprar o The Tile. Trata-se de um bloquinho de plástico que se liga ao celular por conexão Bluetooth, criando uma espécie de cerca digital. O usuário pode atar o dispositivo à sua bolsa ou à chave de casa, por exemplo. Ao se afastar muito, o celular avisa.

É cedo para dizer quais serão os presentes do Natal de 2015, mas a expectativa é que os “wearables” fiquem ainda mais fortes. A Apple planeja lançar seu relógio inteligente, o iWatch, até meados do ano que vem. Também se espera para os próximos meses a chegada dos óculos Google Glass. É bom guardar dinheiro desde já.

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Matéria publicada no jornal Valor Econômico em 09 de dezembro de 2014.

MULHER QUER CONVENIÊNCIA E HOMEM, COSMÉTICO

Questões de gênero, a busca pela felicidade e a conectividade vão atrair a atenção do consumidor no Brasil em 2015, de acordo com a consultoria britânica Mintel. As tendências foram identificadas a partir de pesquisas de comportamento e de intenção de consumo.

“As pessoas estão questionando as noções tradicionais de gênero, rejeitando as restrições de estereótipos e abraçando a liberdade de serem elas mesmas e fazerem o que quiserem”, afirma Renata Moura, analista da Mintel. Segundo a consultoria, as mulheres brasileiras gastam diariamente quase o mesmo tempo que os homens com trabalho, deslocamento e atividades de lazer, mas ainda dedicam uma média de três horas ao dia a tarefas domésticas, como limpar a casa e cozinhar, enquanto os homens gastam 1,6 hora diariamente com essas atividades.

“Empresas de comida e bebida poderiam apelar ainda mais para essas mulheres sobrecarregadas de trabalho, já que 31% das mães estão comprando mais alimentos convenientes e 26% estão pedindo comida em casa para sua família com mais frequência”, diz Renata. Os homens, por sua vez, estão procurando mais produtos de beleza.

“O bem-estar emocional está se tornando o pilar da saúde e do bem-estar, fazendo com que as pessoas busquem ativamente a felicidade e procurem produtos que melhorem seu humor e estilo de vida”, diz Renata. Com essa perspectiva, 75% dos adultos consultados disseram que têm foco no cuidado com a aparência, o que pode indicar uma oportunidade para a indústria cosmética. Passar mais tempo com a família está nos planos de 74% dos entrevistados, o que pode impulsionar o consumo de jogos e produtos e serviços relacionados ao lazer fora de casa.

A Mintel também prevê que dispositivos sincronizados e a tecnologia para vestir vão se popularizar no Brasil, depois de ter conquistado espaço em países como os Estados Unidos. Segundo a consultoria, 21% dos brasileiros de 16 a 24 anos que moram com seus pais planejam comprar equipamentos como TV LED, notebooks e smartphones no curto prazo.

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Matéria publicada no jornal Valor Econômico em 10 de Dezembro de 2014

CIDADES MENORES FORMAM NOVO NICHO

A Tenco Shopping Centers corre contra o tempo para cumprir a meta de ter 30 centros de compras até 2017. Atualmente, tem dez estabelecimentos em operação, dois deles inaugurados neste mês, outros seis em construção e pretende lançar três novos empreendimentos em 2015. Quando resolveu dedicar-se exclusivamente à indústria de shoppings, a empresa mineira decidiu investir em espaços pouco explorados pela concorrência: cidades onde os malls ainda não existiam, preferencialmente no interior. O fundo de investimentos Pátria aderiu ao projeto em 2011, e captou R$ 1 bilhão para aplicar no negócio.

“Nosso alvo são as cidades com população entre 200 mil e 250 mil habitantes. Mas podemos entrar em localidades menores, de 150 mil a 170 mil moradores, que sejam polos de atração de determinadas regiões”, explica o presidente da Tenco, Eduardo Gribel. A decisão está condicionada ainda à renda da população e à adesão ao projeto de pelo menos duas lojas âncoras.

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O 4, o primeiro do agreste de Alagoas, faz parte da rede. Abriu as portas em setembro de 2013. Agora, recebe 65 mil veículos e 400 mil pessoas por mês. A cidade, com uma população estimada de 230 mil habitantes, tem em sua área de influência cerca de 600 mil pessoas. O empreendimento foi inaugurado com cerca de 30 das 204 lojas abertas, embora tivesse 120 contatadas. “Fora dos grandes centros, os lojistas têm dificuldades para cumprir o cronograma até porque existe uma grande carência de mão de obra. Mas no primeiro Natal, 70% delas estavam em funcionamento”, explica Gribel.

A Lojas Riachuelo, do Grupo Guararapes, não teve dificuldade em cumprir o prazo. “As vendas aumentam de 12% a 15% ao mês, e estão de acordo com o cronograma traçado pelo grupo, apesar do momento econômico difícil”, diz o gerente Diego Duremberg. A vacância do Arapiraca Garden Shopping está na casa dos 12%. O empreendimento deve receber, ainda neste final do ano, outro parceiro tradicional da Tenco: as Lojas Renner. A empresa mineira investiu cerca de R$ 700 milhões neste ano, entre recursos próprios e financiamentos bancários, e vai aplicar R$ 500 milhões em 2015.

A rápida expansão da indústria de shoppings oferece novas oportunidades aos lojistas. No entanto, a decisão de entrar em um centro de compras torna-se ainda mais criteriosa, quando envolve novos empreendimentos em cidades de menor porte, onde a maturação é sempre mais lenta. Cautela é a palavra de ordem do comércio, incluindo as redes de franquias, as grandes parceiras. Recente estudo da Associação Brasileira de Franchising (ABF) e da Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce) mostra que são franquias 34,5% das 55.743 lojas pesquisadas em 503 centros de compra de todo o Brasil. No setor de alimentação, o percentual sobe para 57%.

Algumas redes desenvolveram formatos mais adequados à nova realidade, com lojas mais compactas, que exigem investimentos menores. Foi o caso do Grupo Ornatus, dono das marcas Morana e Balonè, de acessórios femininos, Jin Jin Wok, Jin Jin Sushi e Little Tokyo, de comida oriental, e da Mr. Sandwich, de alimentação natural.

“Hoje, é um grande desafio gerar lucros para os franqueados. Nas cidades pequenas, eles são menores, mas podem ser compensados por alugueis e despesas de operação reduzidos”, comenta o diretor de desenvolvimento e negócios do Grupo Ornatus, Eduardo Morita. Há cerca de três anos, a empresa criou o “formato light” para a Morana, com um custo 29% menor do que o da franquia padrão. Entre 15% e 20% das 300 unidades de rede estão em shoppings fora das capitais.

Matéria publicada no jornal Valor Econômico em 27 de Novembro de 2014 por Jane Soares

HIGH LINE UMA VISÃO SINGULAR DE NOVA YORK

Quem diria que cinco milhões de pessoas por ano andariam em cima de velhos trilhos de trem, ouvindo barulho de buzinas de carro e da construção de prédios, olhando o rio Hudson de um lado, hotéis, restaurantes e lojas do outro? Esse é o parque High Line, construído em trilhos de trem suspensos abandonados na zona oeste de Manhattan e hoje um dos destinos turísticos mais populares de Nova York.

Desde que sua primeira parte foi inaugurada, em 2009, o parque se tornou um exemplo de paisagismo e passou a ser imitado no mundo inteiro. E agora que está completo, indo da rua Gansevoort até a rua 34, o High Line está transformando completamente a ideia do que um parque urbano pode ser, tanto em termos arquitetônicos como no modelo de financiamento.

“O parque foi desenhado com a ideia de constante conexão com a cidade”, disse Paul Goldberger, crítico de arquitetura da revista “Vanity Fair”, sobre o projeto criado pelas empresas James Corner Field Operations e Diller Scofidio & Renfro. “É um novo modelo de parque. É um parque para integração, não separação ou remoção do ambiente urbano, mas conexão com ele.”

E a nova fase do High Line transforma ainda outra vez o que o parque traz para a cidade. Até agora, ia de Sul a Norte. Na nova etapa, que começa na rua 30, os trilhos suspensos viram para a esquerda e chegam até a extremidade oeste de Manhattan, oferecendo uma nova perspectiva de visão dos arredores.

Nessa fase, os trilhos contornam um enorme estacionamento de trens, que está sendo transformado em um dos maiores projetos urbanos de Nova York. Chamado Hudson Rail Yards, o empreendimento prevê uma plataforma em cima do estacionamento, onde serão construídos edifícios comerciais e residenciais.

“Eu amo essa nova fase do parque,” disse Goldberger. “Ela é quase como uma metáfora para a própria cidade. Você vai de uma área fechada para uma aberta, de grandes vistas a se sentir mais introspectivo, de multidões à solidão.”

O High Line só existe por causa de dois artistas. Joshua David, escritor, e Robert Hammond, pintor, se conhecerem numa reunião de bairro em 1999. Descobriram que tinham em comum a ideia de dar utilidade aos trilhos suspensos, abandonados desde 1980 e em risco de ser removidos.

Nos dez anos seguintes, eles lideraram uma campanha de arrecadação de fundos e de apoio político. As primeiras duas fases do parque custaram US$ 152 milhões, dos quais US$ 44 milhões foram arrecadados pela organização que criaram, chamada Amigos do High Line.

A última fase custou US$ 35 milhões. Com essas cifras, o High Line é provavelmente um dos parques mais caros da história em termos de custo por metro quadrado. Peter Mullen, vice-presidente-executivo da Amigos do High Line, explicou que o alto custo se deve em parte a grandes investimentos na estrutura e também porque a manutenção do parque é intensa, quase como de um museu. Mas ali também é gerada muita receita para a cidade. “O retorno de investimento da cidade em arrecadação de imposto chega aos 1.000%”, calcula Mullen. Goldberger concorda e comenta: “Provavelmente, nada transformou tanto a cidade de Nova York como o High Line.”

O High Line trouxe dezenas de novos empreendimentos para os arredores, incluindo o novo prédio do Whitney Museum, que será aberto no ano que vem, e um condomínio residencial desenhado pela famosa arquiteta Zaha Hadid, que está em construção na rua 28.

O High Line também se tornou um lugar de exibição de vários projetos de arte pública, incluindo um mural do artista americano Ed Ruscha que vai ficar em exposição na parede de um prédio na altura da rua 22 até maio.

Para a brasileira Gisela Gueiros, que tem um guia de arte em seu site taxiamarelo.com, o High Line tornou-se lugar obrigatório. “Sou apaixonada pelo High Line. Não é um parque para se ficar sentado, é para caminhar. Ele se move como sangue na veia, e você vê a cidade de um ângulo único, como se estivesse no terceiro andar de um prédio.”

O único problema do parque é que, de certa forma, acabou se tornando vítima do próprio sucesso: está sempre cheio de turistas, o que mantém os nova-iorquinos longe.

Numa sexta-feira de manhã recente, Carla Roland, pastora de uma igreja episcopal que mora no Harlem, estava visitando o parque novamente, a primeira vez em dois anos. Acompanhava sua irmã, que vinha do Texas. “O High Line está sempre tão lotado nos fins de semana que sempre desisto de vir aqui. É incrível ver como a região se transformou.”

Mullen reconhece que a lotação do parque é um problema e afirma que o objetivo é servir à comunidade local primeiro. “Os turistas virão, mas queremos continuar a fazer o High Line para os nova-iorquinos.” Sua entidade tem organizado programas educativos, como percursos para escolas locais, teatro e apresentações de arte. “O High Line é um híbrido entre um parque e uma instituição cultural. É um museu de alto padrão, de graça.”

O fato é que muitos nova-iorquinos nunca foram ao parque – entre eles, o prefeito Bill de Blasio. Em entrevista recente, ele, que antes morava no Brooklyn, admitiu que nunca colocou os pés no famoso parque: “Sou fã do parque, acho que ele fez muita coisa boa para a cidade, mas não visitei ainda”.

Esse é só mais um contraste entre De Blasio e seu antecessor, Michael Bloomberg, que doou milhões de dólares do próprio bolso para o High Line e falou com entusiasmo na inauguração do parque, em junho de 2009, “um extraordinário presente para o futuro da nossa cidade”.

Trecho do High Line: parque trouxe dezenas de novos empreendimentos para os arredores, incluindo museu e condomínio residencial

Trecho do High Line: parque trouxe dezenas de novos empreendimentos para os arredores, incluindo museu e condomínio residencial

Matéria publicada no jornal Valor Econômico em 14 de Novembro de 2014

FOCO NO ESCRITÓRIO

A Vitra, empresa suíça referência mundial em design de mobiliário e com showroom recém-inaugurado em São Paulo, apresenta as Workbays: células de feltro em que indivíduos ou grupos podem criar espaços reservados dentro do próprio local de trabalho para desenvolver atividades específicas ou focadas. De fácil instalação, integram-se facilmente a qualquer ambiente, poispodem ser ajustadas, expandidas ou combinadas conforme a necessidade.

Elas são equipadas com as funções necessárias para a realização de atividades, como bancos e superfícies de trabalho. Unidades de arquivamento e iluminação são elementos opcionais, assim como a alimentação elétrica e de dados. Cabines telefônicas, cantos de leitura, salas de videoconferênia, de reunião, entre outros, podem ser adaptados às Workbays.

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Matéria publicada na revista ABC Design em Jul/Ago/Set de 2014

ARQUITETURA E FILOSOFIA: BIENAL BELGA DISCUTE O FUTURO DO LAR

A Bienal de Design de Interiores, de Kortrijk, Bélgica, tem um tema questionador: “O lar não existe”. Saiba, no vídeo, como Joseph Grima materializou isso.

Ao ser convidado para a curadoria da Bienal de Design de Interiores de Kortrijk, o inglês Joseph Grima resolveu fazer uma provocação. Escolheu o tema O Lar não Existe. Embora pareça contraditório dizer isso justamente em um evento com tantos designers que fazem móveis e objetos para…casa, Grima tentou criar um ambiente de observação sobre as mudanças que a casa vem sofrendo nos últimos anos. Saber como a casa nos faz resgatar identidade é o primeiro passo para melhora nossa relação com as coisas que temos nela. Para materializar essa ideia, Grima e o seu grupo Space Caviar (com sede em Genova), montaram uma estrutura metálica gigante, muito similar a nossas estantes modulares. Ali, ele distribui uma série de dados em fotos e gráficos. Há muitos dados estatísticos – sobre o valor econômico da casa, muitas twitts reveladores sobre como as pessoas moram hoje e alguns vídeos. Um deles mostra o turismo que as corretoras de imóveis americanas fazem a casas de pessoas que não conseguem pagar a hipoteca… é possível experimentar ainda um óculos de realidade virtual criado por uma construtora para que os futuros compradores de seus apartamentos possam se sentir dentro dele. Acompanhe o vídeo para saber mais sobre a Expsosição SQM (Metros Quadrados) proposta por Joseph Grima para a Bienal de Design de Interiores de Kortrijk, Bélgica.

http://www.youtube.com/watch?v=fYuk7ucZ_m8

Matéria publicada na revista Arquitetura e Construção em Novembro de 2014

ANGÚSTIA MAIOR DE GESTORES É SEGUIR CONSUMIDOR MUTANTE

Em ambiente de competição acirrada e economia mais fraca, o desafio é inovar, sem estourar o orçamento.

O consumidor muda de ideia, de lugar, de emprego, de marca – e faz isso em velocidade crescente. Não é de se estranhar, portanto, que manter a empresa atualizada e conectada com esse ser mutante esteja no topo das preocupações de seus gestores.

Não ser capaz de decifrar o que motiva o consumidor pode significar perda de clientes. “É o que está acontecendo com o setor de fast-food, que não conseguiu entender ainda que o consumidor quer uma vida mais saudável”, diz o presidente da Talent, José Eustachio.

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McDonald’s, a maior rede de fast-food do mundo, registrou queda de receita global de 5% no terceiro trimestre e recuo nas vendas nos Estados Unidos. Na América Latina, onde a rede é operada pela Arcos Dorados, a receita cresceu, mas as vendas “mesmas lojas” (que compara o desempenho de restaurantes abertos há no mínimo um ano) encolheram 2,4%.

É certo que uma economia em marcha lenta, no mundo e no Brasil, não tem ajudado as empresas que vendem produtos e serviços ao consumidor final. AmBev, Coca-Cola, Natura, Avon e Unilever registram recuo nas vendas ou taxas modestas de crescimento.

É nesse cenário que surgem as principais angústias de gestores de empresas, segundo pesquisa recente da Talent (ver tabela). Para 95% deles, “os desejos e as necessidades das pessoas estão mudando muito e muito rápido”. A maioria dos executivos teme que não esteja suficientemente conectada a seus consumidores e não consiga perceber as mudanças a tempo de reagir.

“Hoje o mundo está muito mais rápido e volátil”, diz Cristiane Amaral, sócia da consultoria EY, onde lidera a divisão de consumo para a América Sul. Para ela, o nível de competição entre as empresas cresceu de tal forma que estabelecer uma política permanente de inovação é uma “condição de sobrevivência”.

A executiva lembra que da lista das 500 maiores companhias do mundo, publicada pela revista “Fortune” em 1994, 60% delas já não existiam mais em 2004. “Foram compradas ou faliram”. Essa análise, pondera, tem dez anos “mas é uma boa referência para relembrarmos a fragilidade dos gigantes.”

A competição no mercado de consumo cresceu, em grande parte pelos avanço da tecnologia e a disseminação rápida de informação. Estes dois fatores combinados reduziram drasticamente as barreiras à entrada de novas empresas. “Vivemos em um mundo onde uma vídeo-conferência compete com um tíquete de avião e onde uma empresa que ninguém conhecia há dez anos atrás alcançou mais de 1 bilhão de clientes”, diz Cristiane, referindo-se ao Facebook, considerado a nona companhia mais inovadora do mundo, segundo ranking global das 50 empresas mais inovadoras, elaborado pelo Boston Consulting Group (BCG).

O BCG ouviu 1.500 executivos globais neste ano para elaborar o ranking e apurou que 61% deles pretendem chegar ao fim do ano tendo investido mais em projetos de inovação do que no ano passado. Mas a pesquisa também mostrou que os gestores estão igualmente preocupados em cortar custos (caso das montadoras de veículos) e “fazer mais com menos” (no setor de agronegócios).

Cristiane, da EY, observa que a melhor maneira de uma empresa inovar de forma eficiente é estabelecer um processo de busca permanente por ideias inovadoras. Não se trata de apenas criar um comitê de “iluminados”, que serão responsáveis por tirar um coelho novo da cartola a cada semana. É preciso, diz ela, envolver toda a companhia e buscar parceiros fora da empresa – isso acelera o processo de tornar-se uma empresa de fato inovadora.

Matéria publicada no jornal Valor Econômico em 14 de Novembro de 2014 por Cynthia Malta

A ASCENSÃO DO PAI GLOBALIZADO

Poucos anos atrás em Riga, na Letônia, notei algo que me surpreendeu: muitos homens empurrando carrinhos de bebê. Você poderia esperar ver isso na Suécia, mas não na ex-União Soviética.

Trata-se da sinalização de uma tendência: a ascensão do pai globalizado. Ao redor do mundo, em alguns países bastante improváveis, os homens estão assumindo um papel maior na criação dos filhos (partindo de uma base reduzida). Em vez do fim dos homens, essa é a sua reinvenção.

Os homens estão mudando porque seu poder sobre as mulheres está diminuindo. “A desigualdade entre os gêneros se encontra em uma tendência de queda nos últimos 60 anos na maioria das regiões do mundo”, diz o novo relatório Como Era a Vida?, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). As coisas melhoraram especialmente desde os anos 80.

As mulheres estão alcançando os homens na idade em que se casam, conseguem representação nos parlamentos, nos direitos de propriedade e no ensino. Até mesmo a Arábia Saudita, o último país onde apenas os homens podem votar, prometeu deixar as mulheres irem às urnas e também concorrer nas eleições locais do ano que vem. A favorita dos agentes de apostas para conseguir o emprego mais importante do mundo em 2016, Hillary Clinton, é avó. É verdade que o machismo global continua extremo em quase todas as medidas, exceto quando comparado com toda a história.

As funções dos gêneros sexuais provavelmente continuarão não muito definidas. Durante milênios a maioria dos homens viveu em vilarejos, tinha pouca escolaridade e era estimada por seus músculos. Mas, por volta de 2008, pela primeira vez, a maioria dos humanos estava vivendo em cidades. Nelas, encontram novas ideias e com frequência não têm avós ou tias por perto para cuidar dos seus filhos. Os duros trabalhos de chão de fábrica, tradicionalmente feitos pelos homens, estão agora sendo feitos por robôs, mesmo em países em desenvolvimento como a China. E o mundo está ficando mais instruído. Isso muda a vida da família porque a maioria dos estudos mostra que homens instruídos cuidam mais dos filhos. Cada novo pai com participação ativa torna-se, então, um modelo para seus filhos.

Acrescente a isso o efeito benevolente do imperialismo cultural americano. Os americanos pelo menos falam sobre os pais participativos. A série de TV “The Cosby Show” tinha muitos exemplos de pais zelosos; suas revistas de celebridades mostram Brad Pitt com um bebê amarrado no peito. Tudo isso tem efeitos globais. Na Venezuela, por exemplo, não é mais tabu para os pais serem fotografados segurando um filho no colo, diz Leonardo Yanez, diretor de programas da Bernard van Leer Foundation, instituição de caridade voltada para a paternidade.

Um indicador da disseminação da paternidade globalizada é a licença-paternidade. A revista “The Atlantic” publicou que há 40 anos, depois que a Suécia se tornou o primeiro país a adotá-la, qualquer sueco que ousasse tirar essa licença era tachado de “homem de veludo”, por causa do tecido unissex bastante popular na década de 70. Em 1994, 40 dos 141 países dos quais a Organização Internacional do Trabalho possui dados, ofereciam alguma forma de licença-paternidade legal. No ano passado, 78 de 167 países faziam isso – incluindo bastiões não feministas como Brasil e Ruanda (mas não, é claro, os Estados Unidos). A Irlanda está considerando instituir a licença e até mesmo o Japão pretende ampliá-la.

Outras medidas também ajudam. Neste século, tornou-se normal no Chile os pais receberem presentes quando ganham um filho (ou filha) – algo que pode ajudá-los a se manter envolvidos na criação dos rebentos. Quando tantos países diferentes mudam simultaneamente da mesma maneira, você vê que a “cultura nacional” não é tão importante. Da “cultura chilena” à “cultura japonesa”, todos os países costumavam deixar as crianças aos cuidados da mãe. Agora, tendências socioeconômicas e a cultura globalizada estão empurrando todos eles para a outra direção, em velocidades variadas.

Brad Pitt e Angelina Jolie em 2009 no Aeroporto de Narita, no Japão: casal tem seis filhos, entre os quais três são adotivos

Brad Pitt e Angelina Jolie em 2009 no Aeroporto de Narita, no Japão: casal tem seis filhos, entre os quais três são adotivos

É bem verdade que não acabaremos em uma paternidade igualitária no curto prazo. Vivo no círculo que é possivelmente o mais igualitário do ponto de vista dos gêneros, dentro da região do mundo que é a mais igualitária para os gêneros: as classes profissionais da Europa Ocidental. Mesmo assim, esse círculo não pratica a paternidade igualitária. Sua nova norma é que enquanto as mães desaceleram suas carreiras e fazem a maior parte do serviço de cuidar dos filhos, os pais efetivamente trabalham 90% do tempo, fingindo até mesmo trabalhar em período integral, enquanto dão uma escapadinha para ver as filhas jogarem futebol. Nenhum pai do meu círculo social almeja uma posição melhor no escritório porque isso mexeria com a hora de ir para a cama. Na linguagem da diretora-operacional do Facebook, Sheryl Sandberg, esses pais estão “se sujeitando” ao escritório.

Essa nova forma de desequilíbrio na vida profissional deverá se espalhar gradualmente entre os pais no mundo inteiro, devendo chegar à Arábia Saudita por volta de 2114.

A questão é como encorajar essas tendências. Precisamos fazer que os pais que participam ativamente da criação dos filhos se sintam másculos, afirma Michael Feigelson, diretor-executivo interino da Bernard van Leer Foundation. Não devemos apresentar a nova paternidade como uma derrota ou a dominação dos homens. Poucos homens querem, na frase imortal de Arnold Schwarzenegger, parecer “afeminados”.

Um exemplo brilhante de como não fazer isso veio do líder do Partido Trabalhista da Nova Zelândia, David Cunliffe, que disse em julho em um simpósio da organização Women’s Refuge: “Posso começar dizendo que sinto muito? Sinto muito por ser homem no momento, porque a violência familiar e sexual é perpetrada principalmente pelos homens contra as mulheres e as crianças”.

É claro que ele perdeu a eleição. Os grupos que defendem os direitos das mulheres também não deveriam sair por aí dizendo aos homens que eles têm sido maus e precisam mudar. Em vez disso, a mensagem deveria ser transmitida, quase subconscientemente, por modelos positivos de comportamento masculino. Uma fotografia tirada por um “paparazzo” de um astro de Hollywood empurrando um carrinho de bebê pode ajudar a humanidade a avançar.
(Tradução de Mario Zamarian) 

Matéria publicada no jornal Valor Econômico em 14 de Novembro de 2014

SERVIÇOS DE MARCAS VÃO ATÉ O PÓS-VENDA

Você marcou um encontro numa cafeteria, mas esqueceu o endereço. Faz a busca pelo celular e acha sem problemas. O lugar tem manobrista e, como começou a garoar, um atendente “posiciona” um guarda-chuva e o acompanha até a porta. O garçom abre um sorriso ao entregar o menu. As letras do cardápio são grandes, mas há óculos de leitura para quem tem dificuldade. Se o salão estivesse lotado, com mesas vagas só na varanda, haveria um aquecedor e mantinhas nos dias de inverno. O café foi perfeitamente tirado, as xícaras estavam impecavelmente limpas. Quando entra no carro para ir embora, percebe que balas de café foram colocadas no console do carro. Um símbolo de agradecimento pela visita e um prolongamento desta sensação positiva por mais tempo.

O “exemplo da perfeição” foi usado pelo designer de consumo Maurício Queiroz para explicar o significado de “service design” em seminário de inovação em Roma, na última semana. O conceito tem dominado todos seus projetos. O arquiteto Queiroz sabe há algum tempo que a loja física é uma etapa da trajetória de compra. Não é o começo, nem o fim. Tanto o espaço quanto quem presta o serviço como os processos de atendimento e, claro, o consumidor precisam estar contemplados ao mesmo tempo.

Muitos de seus clientes, conta, chegam em seu escritório querendo melhorar a tal “experiência” em suas lojas, mas acreditam que basta um charmezinho e mimos eventuais ou, ao contrário, uma parafernália tecnológica para resolver o assunto. “Todos os pontos de contato do consumidor com a marca precisam ser monitorados e cuidados, da facilidade em encontrar o lugar pelo Waze até o pós-venda, que ganhou uma amplitude muito maior. Nada mais pode ficar de fora.”

Quando a interação com o consumidor está em jogo, o “service design” também compreende aspectos da comunicação. E, nesse sentido, o caso do sorvete Diletto é um exemplo negativo. “Muitos consumidores se sentiram traídos com a história da sorveteria que teria sido criada por um ‘modelo’ de avô que nunca existiu. Engajamento é mais importante que tradição.”

Cada passo deve ser dado para criar um envolvimento de longo prazo com o consumidor. “Veja só o caso da Best Buy, que já foi uma grande varejista americana de eletrônicos. Hoje ninguém mais tem razão para comprar lá. Preço o cliente consegue melhor na Amazon. Nenhum vendedor é capaz de dar explicações mais aprofundadas sobre um produto. E na saída ainda conferem sua sacola para ver se não você não está levando nada sem pagar.”

Em geral, diz, ninguém quer mexer no que está funcionando. Seu esforço é para mostrar que há uma mudança de perspectiva. “É preciso migrar do transacional para o relacional. É a relação com o consumidor que se converte em compra e não mais o contrário”, explica. O desafio é ainda maior quando há uma necessidade de especialização no varejo. O consumidor quer saber mais. Queiroz desenvolveu, por exemplo, a primeira loja de produtos de beleza da Dior na América do Sul, prevista para abrir no começo do próximo ano, no Village Mall, no Rio.

“Tudo é feito para a experimentação. O consumidor pode provar os esmaltes e há o ‘nail bar’. Pode testar os cosméticos e há uma sala de tratamento. Há até um espaço dedicado só ao J’Adore para mostrar que o perfume ganhou dimensão de estilo de vida. Você pode comprar produtos Dior em vários lugares, mas este é um espaço para criar relacionamento que, claro, acaba elevando as vendas.”

Mas enquanto há demanda, a acomodação é a regra. E usa o setor automobilístico como exemplo. ” É indecente o tratamento que o consumidor recebe numa revenda de carro por aqui. A postura é: você quer comprar. Então te oferecem uma cadeira qualquer. O vendedor atrás do balcão te dá duas opções de cores e olhe lá, mesmo que você esteja gastando R$ 100 mil. O mostruário de acessórios fica abandonado até que alguém saia do almoxarifado para te atender. O máximo da inovação em serviço em décadas é o ‘test drive’.” A Nespresso, diz ele, é a exceção que confirma a regra. “Dava para continuar a vender café na gôndola do supermercado. Mas que tal ter o consumidor dentro de outra perspectiva? Ao criar as cápsulas, as máquinas desejáveis, lojas exclusivas, formar um clube com os clientes, lançar tiragens especiais do produto, eles revolucionaram o mercado.”

O “service design” é um desdobramento das metodologias do “design thinking”. “O consumidor muda, os serviços mudam. Mas hoje é preciso ter mais velocidade para captar esses desejos e é por isso que este conceito é eficiente.” O mais importante, contudo, é desenhar cada serviço para o consumidor que vai usá-lo. “O café é o que menos importa na Starbucks. As pessoas vão lá pelos sofás, pelo conceito de sala de estar, para relaxar.” Para o Café do Ponto, por exemplo, um de seus clientes, o X da questão era a rapidez. “O cliente comprava a ficha no caixa e pedia o café. Se no meio do caminho quisesse algo mais, desistia para não pegar a fila de novo.”

Queiroz ampliou o balcão para que o consumidor fosse atendido logo e usasse uma ficha para ir agregando mais itens se desejasse. Colocou mais pontos de pagamento na bancada e um caixa principal no fundo. “O tíquete médio aumentou, o cliente foi melhor atendido e volta mais vezes. Você cria um relacionamento sem ser ostensivo como ‘pague primeiro e depois usufrua’.” Tem gente que acha que “service design” é só um termo diferente para tratar de algo que sempre existiu. Pode ser. Mas há muito se sabe que é preciso “servir bem para servir sempre” e nem por isso a postura de muitas empresas mudou. Até porque não há “servir bem” pronto para viagem.

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Matéria publicada no jornal Valor Econômico em 12 de Novembro de 2014 por Angela Klinke

MERCADINHO SOBREPÕE-SE A HIPERMERCADO

De 240 mil há seis anos, pequenos estabelecimentos chegam a 390 mil lojas no país, mostram dados do Sebrae

Atender clientes sob medida e conhecer as características da região em que atua favorecem pequenos

Eles são comandados em sua maior parte por gestões familiares, possuem no máximo quatro caixas de atendimento, vendem um pouco de tudo em suas prateleiras e se espalham por diversas regiões do país.

Os minimercados, conhecidos também como mercadinhos de vizinhança, cresceram 62,5% nos últimos cinco anos e já somam 390 mil lojas no Brasil, segundo estudo do Sebrae, que mapeou como a mudança de hábito de consumo tem impactado nesse segmento do varejo.

Com menos tempo disponível para passar horas fazendo as compras do mês, o consumidor passou a buscar comodidade, proximidade e praticidade na hora de abastecer a sua casa. Entre os Estados que lideram a abertura desse modelo de comércio estão São Paulo, Minas, Bahia, Ceará e Rio Grande do Sul.

O mercadinho Mel e Pimenta (à direita), que chegou ao bairro Bela Vista, em São Paulo, há 20 anos e recentemente ganhou concorrente na venda de produtos como frutas e legumes.

O mercadinho Mel e Pimenta (à direita), que chegou ao bairro Bela Vista, em São Paulo, há 20 anos e recentemente ganhou concorrente na venda de produtos como frutas e legumes.

“Nas regiões metropolitanas, os mercadinhos crescem impulsionados por questões relacionadas à mobilidade. No Norte e no Nordeste, em razão da melhoria na renda de consumidores, principalmente nas classes C e D”, afirma Luiz Barretto, presidente do Sebrae nacional.

Com a inflação em patamares menores, com a necessidade de estocar menos produtos e com o maior nivelamento de preços entre o grande e o pequeno varejo, os mercadinhos se favoreceram na hora de disputar clientes.

Em 2001, eles tinham 30% de participação no varejo. Dez anos depois, eram quase 35%. Na contramão, os grandes (com 20 caixas ou mais) perderam espaço –passaram de 36,1% para 22,5%.

SOB MEDIDA

“Se o consumidor tem menos tempo e maior necessidade de encontrar tudo perto de casa ou do trabalho, é assim que vou trabalhar. Foi o que pensei ao abrir meu negócio há 20 anos”, diz a design de interiores Adriana Chalita, 47, dona do Mel e Pimenta, mercadinho na Bela Vista, bairro no centro de São Paulo.

De produtos orgânicos a colares, é possível encontrar, segundo ela, um pouco de tudo no local.

“Há quatro anos decidi abrir um canto, no fundo da loja, para oferecer pequenos presentes, como bijuterias, biquínis e echarpes. Deu certo”, diz. “Também posso trazer um produto para pratos especiais, como folha de uva, usada por alguns clientes.”

O que era um negócio montado para complementar a renda da família virou o trabalho principal. De três, o número de empregados passou para seis. Cinco reformas já ocorreram no local e até um vizinho concorrente chegou ao lado do mercadinho, além de um supermercado de uma grande rede de varejo.

“No início, 10% da clientela foi experimentar as novidades na concorrência, mas acabou voltando”, diz.

A cerca de dez quilômetros de distância do Mel e Pimenta, o empresário Luiz Carlos Dias Roiz, 53, dono do minimercado Pam Gui, em Osasco, atende os clientes mais antigos entregando muitas vezes até dois pãezinhos franceses quando necessário.

De agricultor em um pequeno sítio no Paraná passou a empacotador e, anos depois, a comerciante. “Quando montei o mercadinho, éramos eu e mais um. Hoje, somos dez, além das redes que chegaram ao bairro”, diz.

A concorrência não o assusta. “Tem espaço para todos. Para quem quer fazer a compra do mês ou comprar um item para o almoço do dia. Atendimento de qualidade é que faz a diferença. Comecei a fazer entregas em uma favela das proximidades há muitos anos, muito tempo antes de o grande varejo chegar à periferia”, explica.

De olho nesse mercado de proximidade, o grupo Pão de Açúcar decidiu lançar o Minimercado Extra e o Minuto Pão de Açúcar. Hoje são 215 lojas em SP, e a meta é abrir mais 300 até 2016. O concorrente francês lançou o primeiro Carrefour Express há dois meses e promete “centenas” nos próximos anos.

Conhecer o cliente de perto, ter um relacionamento mais próximo com o funcionário, conhecer as características da região onde atua, além de ter serviços customizados, são alguns pontos que favorecem os mercadinhos.

Na outra ponta, baixa profissionalização, menor poder de barganha com a indústria e sistemas pouco automatizados estão na lista de lições de casa, dizem especialistas.

Matéria publicada no jornal Folha de São Paulo em 09 de Novembro de 2014 por Claudia Rolli