INTEGRAÇÃO ENTRE SETORES E ÁREAS DE CONVIVÊNCIA DOMINAM PROJETOS

Escritórios se ajustam a práticas mais flexíveis de trabalho

A flexibilidade das relações profissionais se estende ao ambiente de trabalho.

“O que difere o escritório de hoje daquele do século passado é que as pessoas realizam várias atividades, com níveis de interação diversos, e o ambiente deve oferecer essa mobilidade”, diz Claudia Andrade, arquiteta do escritório Andrade Azevedo.

A expansão do home office e do coworking (escritórios compartilhados), associado ao alto preço do metro quadrado dos espaços, são os principais estímulos a esse modelo mais maleável.

O segmento já passou por fases opostas, ora com ambientes bem compartimentados, ora com amplos espaços divididos por baias.

Hoje, o “menu” de tipologias deve ser mais variado.

“Áreas de integração, interatividade entre departamentos e curta permanência fazem parte da estrutura principal da organização de novos escritórios”, diz Marcelo Breda, diretor da Informov, empresa de construção corporativa.

Com o estímulo ao trabalho em grupo, espaços coletivos, formais ou para relaxar, são mais valorizados. “Se antes 20% de um escritório era de ambientes colaborativos, hoje chega a 40%”, diz o arquiteto Fernando Vidal, do escritório Rocco Vidal P+W.

Para compensar o menor número de áreas individuais, surgem as “phone booth” (cabine telefônica, na tradução livre do inglês), salas pequenas para até duas pessoas.

A tentativa é economizar e otimizar o espaço, deixando o escritório, ao mesmo tempo, amigável.

Ambientes abertos e transparentes, com salas de vidro, por exemplo, têm ganho de eficiência visual e incidência de luz natural. Por outro lado, apresentam desafios, como a acústica.

“Nem sempre é possível fazer um projeto assim. Toda essa dinâmica é muito nova, mas, no geral, estamos percebendo que novas possibilidades arquitetônicas ajudam a aumentar a produtividade da empresa”, afirma o arquiteto Lula Gouveia, do SuperLimão Studio.

prj

2Colaborou ANAÏS FERNANDES

Matéria publicada no jornal Folha de São Paulo em 26 de Outubro de 2014

DELÍCIA DE REUNIÃO

Você passa o dia trabalhando em uma sala bege e sem graça? Profissionais de diversas áreas quebraram paradigmas ao montar escritórios agradáveis, inspiradores e muito produtivos. Mostre esta reportagem ao seu chefe!

FOME DE TRABALHO
“Cozinhas são melhores que salas de reunião”. O slogan escolhido para a agência Loud Lemon, onde funciona também a consultoria de gastronomia Dedo de Moça, ambas lideradas pelo publicitário André Rodrigues, diz muito sobre o visual do escritório de 110 m². Localizada em um charmoso prédio da rua Oscar Freire, a empresa, em vez de sala comercial comum, é uma supercozinha. “As reuniões com clientes acontecem ao redor da mesa, como um encontro entre amigos”, diz André, servindo uma taça de vinho para acompanhar a entrevista. Paredes, aqui, são cheias de bossa: há desenhos assinados pela artista Lu Maia e patchwork de páginas de revistas gourmet. Se o trabalho flui em um espaço assim tão descontraído? “É preciso ter disciplina. Às vezes nos sentimos confortáveis até demais”, brinca o publicitário.

A mesa é emoldurada pela parede pintada com tinta para lousa, que disfarça a TV | Páginas de revistas de gastronomia formam mural de referências. Luminária feita com fio, soquete e lâmpada | Adesivos da revista Lucky Peach dão toque divertido ao décor (Foto:  Lufe Gomes/ Editora Globo)
Área externa: os sócios Thiago Rodrigues (em pé, de camisa azul), Antonio Carlos (de preto) e Lula Gouveia (segurando a planta) com o time do Superlimão Studio (Foto:  Lufe Gomes/ Editora Globo)

SEM CONVENÇÕES
Casa na árvore para relaxar, muros externos cobertos por pinturas e um bar para drinques. No interior do galpão de 180 m², na Vila Madalena, funciona o escritório de arquitetura Superlimão Studio, idealizado pelos sócios Sérgio Cabral, Thiago Rodrigues, Antonio Carlos e Lula Gouveia. Ex-garagem com boa iluminação natural, o local tempoucas portas – que ficam sempre abertas – e reproduz valores aplicados nos trabalhos do escritório, como o reaproveitamento de peças, a criatividade e o bom humor. Reuniões são realizadas ao ar livre em bancos de madeira trazidos de obras. Na parte interna, murais convidam a equipe a expressar ideias e anotar compromissos. “Se tivéssemos escolhido um conjunto comercial não teríamos os mesmos resultados”, conta Antonio Carlos.

Mural de ideias: forrada com placa de Formica, a parede é liberada para escrever ideias e compromissos. Feita com barras de alumínio, a estante abriga um bar | Material de demolição: objetos como a banheira retrô e a placa de sinalização enfeitam o jardim (Foto:  Lufe Gomes/ Editora Globo)
Espaço de exposição: no ateliê com pé-direito alto e espaço amplo, a gerente Morgana de Carvalho mostra os tapetes (Foto:  Lufe Gomes/ Editora Globo)

PAUSA PARA IOGA
Radicada em São Paulo há dez anos, a designer nova-iorquina Lina Miranda temo privilégio de, no meio do expediente, dar uma passadinha em casa para ver a filha. Na mesma rua onde mora, no Jardim Paulistano, encontrou um imóvel de 200 m² onde montou o ateliê da marca Square Foot. Com tijolos e tubulações elétricas aparentes, o local já abrigou um depósito de bebidas, um restaurante e uma floricultura. O rico passado foi mantido na estética atual: no meio do escritório, o fogão a lenha permaneceu intacto e abriga a máquina de café. “A área é ampla e temo pé-direito alto. Assim, posso estender os tapetes e mostrar meu trabalho com tranquilidade”, diz Lina. Entre um compromisso e outro, a designer e sua equipe desligam os celulares e fazem sessões de ioga.

Painel: recortes de revistas e frases inspiradoras preenchem o mural de cortiça, em frente à bancada de trabalho | Na sala de espera, tijolos originais da construção e a tubulação elétrica. Poltronas com almofadas Star Grey e tapete tibetano (Foto:  Lufe Gomes/ Editora Globo)

MUNDO COR-DE-ROSA
Muitas das lojas e vitrines que vemos nos shoppings, em especial as de grifes de moda, foram projetadas por Camila Salek. Sócia-diretora da Vimer, empresa de experience merchandising, a mineira começou em uma sala séria e fechada, na tradicional avenida Faria Lima. Em pouco tempo, resolveu se mudar para a Vila Madalena. “A região é mais leve e alegre, além de estar perto de casa”, diz ela, mãe de gêmeas. No espaço de 270 m², sofás Chesterfields – iguais ao que a empresária temno apartamento onde mora – preenchem a sala de espera, marcada por tijolos e concreto aparentes. Na sala de reunião, a mesa retangular cor-de-rosa surpreende. “Quando faço um projeto, sempre escolho um móvel principal e o que pode vir ao redor dele. Aqui, segui o mesmo princípio”, conta. Do lado de fora, o jardim com mesa e rede é cenário de papos sérios, mas também de festinhas com a equipe toda sexta-feira.

A empresária Camila Salek, sócia-diretora da Vimer | Sofás Chesterfield da Maria Jovem, forrados de couro ecológico e veludo, compõem a sala de espera ao lado de poltronas e mesa de centro vintage (Foto:  Lufe Gomes/ Editora Globo)
Sala de reunião: a mesa retangular cor-de-rosa foi o ponto de partida para a decoração do ambiente, que tem quadros de ímãs apoiados na parede. Janelas integram o jardim, com mesa e rede para descansar (Foto:  Lufe Gomes/ Editora Globo)
Sobre o bufê com impressão digital nas portas, da Osvaldo Antiguidades, vitrola, vinis e livros de arte (Foto:  Lufe Gomes/ Editora Globo)

SEGUNDA CASA
Cenógrafo e arquiteto, o croata Marko Brajovic trocou as temperaturas geladas pelo calorzinho brasileiro e não gosta de chamar de escritório seu local de trabalho. “Estamos bem longe de ser um escritório. Aqui é a minha segunda casa”, conta. Goiabeira, bicicletário, mesinhas ao ar livre e até um solário para reuniões sob a luz do dia fazem parte do sobrado de 90 m² em Perdizes, antes habitado por um casal de idosos. Na sala de projetos, bancadas compartilhadas sem divisórias unem profissionais de áreas criativas, como design audiovisual e de produto. Para simbolizar a simplicidade, Marko escolheu a cor branca para paredes e móveis – incluindo a estante feita de caixotes de plástico.

O cenógrafo e arquiteto Marko Brajovic, ao lado da goiabeira | Sala de projetos: a equipe de 15 profissionais do Atelier Marko Brajovic trabalha em bancadas compartilhadas sem divisórias. (Foto:  Lufe Gomes/ Editora Globo)
Área reservada: para reuniões com clientes ou brainstorms, a sala nos fundos do sobrado tem estante feita com caixotes plásticos, também utilizados para a base da mesa (Foto:  Lufe Gomes/ Editora Globo)
Materia publicada no site Revista Casa e Jardim em 25 de Agosto de 2014 por Jéssica Ferrara com Mariana Mello | Fotos Lufe Gomes

4 DICAS INFALÍVEIS PARA VOCÊ PLANEJAR MELHOR O SEU DIA

Executivos como Bill Gates, Mark Zuckerberg, Warren Buffett e tantos outros têm uma coisa em comum com qualquer empreendedor: todos têm um dia com 24 horas de duração. No entanto, nenhum deles usa a falta de tempo como desculpa para não concluir suas tarefas. Tais bilionários, em um determinado momento de suas carreiras, tiveram as mesmas condições que você. A agenda cheia e a falta de pessoal para resolver os problemas de uma empresa acometem todo mundo.

No entanto, Gates, Zuckerberg e Buffett deram conta do recado e hoje têm um saldo bancário cheio de zeros. Qual será o motivo do sucesso dos três? Para Mark Hunter, colunista do site da revista Entrepreneur, os porquês são vários, mas com certeza uma boa gestão do tempo está entre eles.

O especialista afirma que, ao organizar as tarefas do dia a dia e não abrir espaço para distrações, o empreendedor ganha aumentos sensíveis na produtividade. Ou seja, vende mais, gerencia melhor sua equipe e ainda encontra espaço para ficar com a família.

Abaixo, seguem algumas dicas de Hunter para quem quer planejar melhor o dia. E, se tudo der certo, tornar-se um bilionário. Confira:

1. O amanhã começa hoje
Profissionais realmente produtivos nunca terminam o expediente sem planejar o que farão no dia seguinte. Segundo Hunter, ao usar alguns minutos para organizar a agenda das próximas 24 horas, o empreendedor acaba tomando melhores decisões. Além disso, ao deixar o planejamento para depois, é possível que você não planeje nada e acabe usando a manhã para resolver problemas que eventualmente surjam.

2. Reserve um tempo para ficar com quem é produtivo
Ao se juntar a alguém que executa suas tarefas rapidamente, é possível entender o que essas pessoas fazem para trabalhar. Preste atenção no tempo reservado por eles para as redes sociais, e-mails e conversas supérfluas, por exemplo.

3. Deixe uma tarefa fácil para o começo
Ao planejar o cronograma do dia seguinte, reserve o começo do expediente para a resolução de uma tarefa mais simples. Assim, você começa o trabalho com algo a menos para se preocupar e fica motivado para a resolução dos problemas mais difíceis.

4. Use o que aprendeu
Seja pela ajuda de um colega ou ao descobrir “truques de produtividade” enquanto trabalha, faça o possível para usar o que aprendeu. Lembre-se: ninguém se torna um profissional de alta eficiência de uma hora para outra – aperfeiçoe-se dia após dia e você verá os resultados pouco tempo depois.

 4

Matéria publicada no Portal Grandes Empresas & Pequenos Negócios em 16 de Setembro de 2014

PREÇO DE ALUGUEL DE ESCRITÓRIOS EM QUEDA

Os preços de locação em prédios de escritórios corporativos classe A nas capitais pesquisadas pela Cushman & Wakefield mantiveram a trajetória de desvalorização no segundo trimestre em São Paulo e no Brasil, tanto na comparação com o mesmo período do ano passado quanto com o primeiro trimestre.

Na avaliação da gerente-geral de locações para São Paulo da Cushman, Raquel Miralles, os preços de locação no mercado paulistano tendem a manter a queda no segundo semestre e, se a economia der sinais de melhora, ficar estáveis em 2015. “Esperamos a volta do ciclo de crescimento para 2016″, afirmou.

Nos mercados nacional e paulistano, houve retração de 4% nos preços pedidos de locação ante o primeiro trimestre. No Brasil, os valores pedidos caíram 8,6% em relação ao segundo trimestre de 2013 e, em São Paulo, encolheram 11% na mesma comparação.

Os preços fechados tiveram queda ainda maior do que a redução dos valores pedidos. “Há mais flexibilização nas negociações, tendo em vista que a economia não está em franca expansão”, diz a gerente da Cushman. A locação de novas áreas tem sido motivada por busca de mais qualidade.

1 OK

Matéria publicada pelo Jornal Valor Econômico em 05 de Agosto de 2014 por Chiara Quintão.

AJUSTE FAZ SUBIR EM 2013 ÍNDICE DE SALAS DESOCUPADAS

Embora os índices de vacância tenham crescido, pressionando os preços de locação para baixo, a situação repete um ciclo de ajuste de oferta e demanda.

A vacância dos escritórios corporativos, por exemplo, hoje em 17,3%, é menor do que no período de 2003 a 2005. E o setor passou por superoferta também na primeira metade da década de 1990.

Os lançamentos tendem a cair, como agora, se a oferta é elevada. Só que o efeito não é imediato, pois os empreendimentos lançados antes continuam a ser entregues.

“O mercado está passando por um ajuste, com um equilíbrio maior de preços. O cenário continua para 2014 e a vacância deve chegar a mais de 20%, já que a economia não está numa crescente”, diz Raquel Miralles, da Cushman & Wakefield.

Para não sobreofertar ainda mais o mercado, algumas incorporadoras adiam a entrega de empreendimentos.

Mesmo com esses “atrasos”, consultorias estimam que o ciclo não deve ser invertido antes de 2017, a menos que haja aquecimento forte e repentino da economia.

“Tem hora em que você tem pouca oferta e muita demanda, daí o preço sobe. Tem hora com muita oferta e pouca demanda: o preço cai”, diz Walter Cardoso, do Secovi-SP.

No caso do praticamente esgotado mercado de salas comerciais, a estratégia das empresas para atender ao investidor que compra imóvel de olho em alugá-lo foi migrar para o segmento residencial.

Nesse caso, a aposta é em apartamentos compactos, que têm grande demanda de locação. Lançados em áreas nobres, até cerca de 80% das unidades vão parar na mão de investidores.

SHOPPINGS

Nos shopping centers, a vacância se mantém em patamar baixo, apesar de ter crescido em 2012 e 2013.

Segundo a Abrasce (associação do setor), as lojas vagas em janeiro representaram 3,75% do total. No começo da década passada, porém, a vacância estava acima de 5%.

“Há no Brasil um pé atrás sobre os rumos da economia. É evidente que nós, shoppings, fazemos parte disso, mas até não podemos dizer nada de negativo. Fechamos o ano passado com 9,86% de crescimento nas vendas”, diz Luiz Fernando Veiga, presidente da associação.

Para ele, as interpretações que apontam que o setor vai mal erram ao generalizar situações pontuais, como o caso de pequenas cidades.

Em 2013, foram inaugurados no país 38 shoppings, ante 27 em 2012. Para este ano, estão previstos mais 43.

No setor de condomínios logísticos (galpões industriais), a vacância também cresceu, mas há estabilidade nos preços, segundo a consultoria Herzog.

Matéria publicada no jornal Folha de São Paulo em 22 de março de 2014

 

A Verdade Sobre a Vida no Escritório

A história dos últimos 250 anos do mundo corporativo mostra que a paquera e o tédio sempre existiram e que a “tia” que trazia o chá jamais retornará. Por Lucy Kellaway, do Finacial Times

Quando comecei a trabalhar em um escritório, no início da década de 1980, fumávamos em nossas mesas, martelávamos nossos textos em duras máquinas de escrever e na hora do almoço escapávamos até a cantina do escritório para comer uma torta de carne moída. Tudo o que venho escrevendo a partir de então sobre os escritórios modernos – os lugares sem fios, sem fumaça e silenciosos onde agora trabalhamos – é tingido por minhas lembranças de como eram as coisas no passado.

No entanto, agora penso que meu senso de história era totalmente distorcido. Acabei de realizar uma série para a BBC Radio Four sobre os últimos 250 anos da vida em escritórios e descobri que metade das coisas que considerava novos modismos revelaram-se não ser, de alguma forma, novidades, ao passo que muitas coisas que considerava fatos eternos da vida em escritórios são realmente bastante recentes. Existem, porém algumas constantes – como a paquera e o tédio -, assim como algumas coisas que desapareceram para sempre. A “tia da copa” que trazia o chá jamais retornará.

As listas a seguir pretendem restabelecer a verdade.

Seis modismos que não são novos

1 – Trabalhar no Starbucks

Esta tendência recente tem 350 anos de existência. O primeiro café londrino foi inaugurado em 1652, e foi um sucesso instantâneo entre os homens cuja atividade era vender seguros de navios ou que negociavam com açúcar ou com cabelo humano. Após 50 anos, havia 3 mil deles – uma taxa de expansão que faz a invasão da Stabucks na capital do Reino Unido parecer uma tartaruga. Há duas diferenças entre aquelas cafeterias e a versão moderna. O foco, à época, era frequentar para encontrar gente – hoje é para ficar sozinho com seu laptop. E a bebida predileta não era um frappuccino de caramelo com canela extra, mas uma bebida quente que, dizem, mais parecia um “xarope de fuligem com essência de sapatos velhos”.

2- Trabalhar em casa

As pessoas costumavam trabalhar em casa – não por causa da internet ou para poupar gasolina, mas porque não havia escritórios. Em 1762, quando o Barings estabeleceu sua sede na Mincing Lane, a atividade bancária acontecia no térreo, enquanto no andar de cima a senhora Baring criava dez de seus 12 filhos. Foi um tempo de funcionários polivalentes que também moravam no local, dos quais esperava-se que fossem igualmente habilidosos com os números quanto em desincumbir-se de tarefas cotidianas e distribuir o pão redondo com manteiga na hora do chá.

3 – Pagar para ser estagiário

Dos estagiários modernos espera-se não apenas que trabalhem sem remuneração, como também, por vezes, que tenham de pagar pelo privilégio. Mas 200 anos atrás esse tipo de coisa era rotineira. Quando um Charles Lamb adolescente conseguiu um disputado emprego no departamento de contabilidade da Companhia das Índias Orientais, teve de pagar uma fiança de 500 libras esterlinas como garantia e bom comportamento e encontrar dois patrocinadores que fizessem o mesmo, e então trabalhou durante dois anos sem receber nenhum salário. Isso lhe custou o equivalente a 140 mil libras, fazendo com que o estágio de uma semana na “Vogue” – arrematado por 42,5 mil libras em um leilão beneficiente, no ano passado – pareça bastante razoável.

4 – Café da manhã à mesa de trabalho

Um jovem colega gosta de começar o dia com uma tigela de Fruit’n Fibre equilibrada sobre seu teclado. John Stuart Mill fez o equivalente 170 anos antes. Todos os dias, ele caminhava de casa, em Kensigton, até seu escritório na Leadenhall Street, onde consumia um ovo cozido e uma xícara de chá à sua escrivaninha. A diferença era que o café da manhã de Mill era trazido por uma criada. Meu colega tem de encher ele próprio sua tigela de Fruit’ n Fibre.

5 – Twitter

O site de microblogging não inventou a comunicação sucinta. Isso foi inventado em 24 de maio 1844, quando Samuel Morse digitou o primeiro telegrama: “O que Deus fez!”. O que Ele fez acabou revelando-se algo de fato bem grandioso, abrindo o caminho para a internet e levando Jack Dorsey a digitar, em 21 de março de 2006 o primeiro tweet: “Só estou compondo meu primeiro twttr”. Não é de surpreender que, como exemplo de prosa, a mensagem de Morse tenha sido enormemente superior: os primeiros telegramas custavam o equivalente a US$ 25 por mensagem; ou seja, as pessoas não escreviam qualquer cisa velha.

6 – E-mails destruindo a paz de espiríto

Nossos temores de que as mensagens de e-mail nos deixem estressados são precisamente os mesmos que tínhamos cem anos atrás, com o surgimento do telefone. Um artigo publicado na revista “Telephony” em 1913 informou que algumas pessoas ficavam histérica por terem de ficar permanentemente à disposição para atender chamadas telefônicas que chegavam com uma frequência inferior a uma por dia. E foram os telefones, e não o BlackBerry, que destruíram férias. Um anúncio de 1914 advertia homens de negócios para o fato de que um telefone os permitiria, enquanto pescassem trutas durante suas férias, manterem-se em contato com o que estava acontecendo no escritório.

Seis coisas que são novas

1 – Gestores

Até o século XX quase não existiam gerentes. O Reino Unido atravessou a Revolução Industrial sem quase nenhum administrador. Em vez disso, havia propietários, capatazes e supervisores. A palavra “gerente” somente foi usada em seu sentido moderno a partir e cem anos atrás. Mas agora há 5 milhões deles no Reino Unido – dez vezes mais do que em 1911. Sem gerentes, a vida em escritório, como a conhecemos, simplesmente não existia: quase não havia reuniões, memorandos e não havia necessidade de “alavancar” ou “fornecer soluções.

2 – Gostar de seu trabalho

A noção de que as pessoas gostavam de seu trabalho era inaudita. Mill, que tinha um emprego confortável na East India Company, evidenciava uma atitude mais positiva do que a maioria das pessoas, mas até mesmo ele considerava o trabalho como “efetivamente um descanso das outras ocupações mentais que exerço simultaneamente”. Na época vitoriana, funcionários em escritórios parecem ter sido permanentemente infelizes. Um deles, em 1907, refere-se a colegas como “miseráveis movedorezinhos de canetas em casacas negras com os dedos manchados de tinta e fundilhos reluzentes” Eles sentavam-se em banquetas desconfortáveis, trabalhavam em lugares úmidos e eram propensos a pegar turbeculose – ou ficar com dor nas costas.

3 – Mulheres

Mulheres em escritórios foram uma inovação do século XIX, introduzidas como uma experiência para lidar com a crescente carga de trabalho, mas tornaram-se um enorme sucesso. Elas eram baratas, e não precisavam ser promovidas, porque, tão logo casavam-se, deixavam o trabalho e eram substituídas por alternativas mais baratas. Até a Primeira Guerra Mundial, “funcionárias do sexo feminino” tinham entradas, escadas e salões de refeições separados. Trabalhavam muitas vezes atrás de biombos e, em alguns casos, em gaiolas, para assegurar que sua moral permanecesse imaculada. No Barclays, elas eram autorizados a subir à cobertura na hora do almoço, onde caminhavam e entoavam a canção da empresa. Havia apenas um privilégio desfrutado pelas funcionárias hoje não disponíveis: elas eram autorizadas a tricotar em períodos de ociosidade.

4 – Competência

Ser adequado ao seu trabalho é uma invenção relativamente nova, pelo menos no setor público. Em meados do século XIX, a administração pública era recheada de idiotas irrecuperáveis, lá colocados por parentes. Uma avaliação parlamentar de 1855 faz referência “aos mais débeis filhos de algumas famílias, afortunados por uma nomeação, sim, e outros também, mentalmente ou fisicamente incapacitados, são admitidos ao funcionalismo público”. Mas vieram as reformas da década de 1870 – e a ideia revolucionária de que, para conseguir um emprego, o candidato precisava não apenas não babar na gravata, como também dominar um pouco de matemática e, igualmente, latim.

5 – Jargão

Quando o estilo de gestão era do tipo comando e controle, não havia necessidade de jargão. Para dispensar pessoal, não se dizia “descontinuar”, como fez o HSBC, recetemente. William Lever, fundador da empresa de sabonetes Lever Bros, escreveu sem rodeios sobre como, na década de 1920, ele livrou-se de “homens ineficientes, e homens idosos já incapazes de desempenhar suas incumbências. Estou confiante em que isso produziu um estado de medo nas mentes dos remanescentes por sugerir que, se não forem eficientes, a vez deles também chegará”.

6 – Roupas casuais

A equipe que trouxe o Mancintosh, da Apple, ao mercado em 1984 não se limitou a surpreender o público com seu produto, mas também com suas roupas: estavam todos vestidos com capuzes cinza. Até então, todo mundo vestia-se para trabalhar. Em “As aventuras do Sr. Picwick”, Charles Dickens descreve: “Primeiro, despe o paletó preto que dura o ano todo, e enverga outro, que já cumpriu seu dever no ano anterior, e que ele mantém à sua mesa para poupar o outro”, Na década de 1970, a virtude do traje elegante foi comprovada cientificamente: de acordo com o best-seller “Dress for Sucess” (como vestir-se para ser bem sucedido): as secretárias de homens que usavam camisas de manga curta atrasavam-se para o trabalho 12% mais do que as do homens em mangas compridas.

Seis coisas que são eternas

1 – Luxúria

Isso é bem anterior à invenção de funcionários do sexo feminino. Como Samuel Pepys escreveu em seu diário em 30 de junho 1662: “Acordei cedo e fui para o escritório, onde encontrei a garota de Griffen limpado-o, mas, Deus me perdoe! Como a desejava, mas não me envolvi com ela”. Quando as mulheres chegaram aos escritórios, muita coisa começou a acontecer, e muitas vezes terminou muito mal mesmo. Em 1958, Connie Nichols, secretária na Eli Lilly, manteve um longo caso com seu chefe, mas quando descobriu que tinha sido substituída por uma modelo mais jovem, deu um tiro nele.

2 – Falar mal de colegas

Ridicularizar colegas de trabalho parece ser uma necessidade básica das pessoas que trabalham em escritórios. Lamb compôs um dístico sobre um colega particular obtuso chamado Ward: “O que Ward sabe, só Deus sabe; mas sabe lá Deus o que Ward sabe!”. Embora a necessidade seja constante, o modo de execução mudou – ditos espirituosos foram, desde então, substituídos por brincadeiras de mau gosto em redes sociais.

3 – Prêmio de beleza

Ser alto, falar baixo e agradável aos olhos sempre foi uma vantagem. Verificou-se que os executivos-chefe contemporâneos nos Estados Unidos são 2,5 polegadas mais altos do que o homem médio, e inúmeros estudos têm mostrado que os mais bem-apessoados têm maior taxa de sucesso. Cem anos atrás, a menção do “fator beleza” era explícito: no Bank of Scotland, no fim do século XIX, funconários eram “removidos da vista”, em virtude da “baixa estatura”, ter uma “voz meio esquisita” ou por “suas orelhas de abano e cabelo ruivo”.

4 – Políticas mesquinhas

Em minha vida profissional, algumas das mudanças mais impopulares focaram mordomias insignificantes, como biscoitos grátis. Na companhia das Índias Orientais em, 1817, houve uma gritaria geral quando a festa de Natal – a “festa anual da tartaruga” – foi suprimida. Ainda pior foi uma nova iniciativa que exigia uma assinatura a cada 15 minutos durante o dia inteiro. Uma política que faz parecer laisser-faire a insistência de Marissa Mayer em que o pessoal do Yahoo compareça ao trabalho.

5 – Slogans motivacionais

Na moderna sede do Facebook em San Francisco, as paredes são cobertas de avisos dizendo: “O que você faria se não estivesse com medo?. No edifício Larkin Soap, em Buffalo, também bastante modernoso à época de sua inauguração, em 1907, o arquiteto Frank Lloyd Wright mandou esculpir nas paredes: “pensamento, sentimento, ação”. Esses slogans não se revelaram excepcionalmente bem-sucedidos: a Larkin Soap faliu.

6 – Papel

É famosa a previsão da “Businessweek”, em 1975, segundo a qual os escritórios iriam funcionar sem papel, mas nos 25 anos seguintes o volume de papel usado nos escritórios continuou crescendo. Embora estejamos agora abandonado um pouco o hábito, o trabalhador médio ainda gera 1 quilo de papel por dia. Eu mantenho minha previsão de que o escritório sem papel só será realidade depois dos banheiros sem papel.

Seis coisas que nunca voltarão

1 – Livros registro

O fim dos livros de registro foi, possívelmente, a melhor notícia que os escritórios já receberam. O sistema baseado no registro de informações em ordem cronológica significava que nenhuma informação podia ser recuperada suspensas, em 1868 – permitindo que as coisas fossem arquivadas em ordem alfabética – foi, provavelmente, um passo maior para a economia baseada em conhecimento do que o computador.

2 – Um cemitério de equipamentos

Coisas como canetas de pena, papel mata-borrão, máquinas de escrever, máquinas de somar, computadores de grande porte, editores de texto e máquinas de fax já se foram todos, ou estão indo.

3 – Ruído

O fim do som de metal batendo das máquinas de somar, de máquinas de escrever e dos estridentes telefones de baquelite significou o fim do ruído. Agora, há apenas a leve batida nos teclados e a educada vibração dos celulares. Texto susbtituiu falação. A ironia é que, contra todo o silencio pertubador, o que começamos a fazer? Usar fones de ouvido.

4 – Cigarros

Essa era a droga perfeita nos escritórios e um lubrificante social. Nos tempo de Dickens, em vez de cigarros, era a vez do rapé: “O funcionário sorriu quando enquanto fez o comentário e inalou uma pitada de rapé com um entusiasmo que parecia ser intesificado pela mescla de paixão pelo rapé e antecipação do prazer de cobrar uma taxa”. Nas burocracias, o prazer da cobrança de taxas sobreviveu ao apego ao cigarro, que foi expulso dos ambientes de trabalho, consumido apenas por uma minoria obstinada na calçada à frente do prédio.

5 – Privacidade

Trabalhadores subalternos sempre trabalharam em salões sem divisórias, enquanto os gerentes tinham suas própria salas – até a década de 1960 e um movimento alemão denominado Bürolandschaft removeu as paredes e colocou vasos de plantas em seu lugar. A partir de então, o avanço dos “planos abertos” continuou, e, apesar de os executivos conseguirem manter suas próprias salas, as paredes agora são feitas de vidro. Assim, quem quiser um encontro reservado é obrigado (a) a sair do aquário e ir à escada.

6 – A “tia da copa”

Em 1666, a mulher do responsável pela casa da East India Company começou a fazer chá para os diretores e assim nasceu o papel da “tia do chá”. Nos 300 anos seguintes, ela foi uma figura “cult” na maioria das empresas, com seu grito de boas-vindas: carrinho. Em 2003, Isa Allan, uma “senhora da copa” na Scottish Enterprise, recebeu uma condecoração da rainha por ser o “coração e alma” do lugar. Porém, até mesmo a rainha não foi capaz de deter o avanço da mecanização e dos cortes de custos: a “tia” do chá foi substituída pela máquina de café, pelo bebedouro e pela rede de fast-food Pret a Manger – e nenhuma das alternativas é tão competente.

Fonte: Valor Econômico: 02/08/2013

Escritório como uma obra preciosa

Com muita bossa e um interessante jogo de cores, a arquiteta e cenógrafa Mayene Precioso, formada na FAAP, assina o novo escritório da descolada produtora artística Velloni. O projeto, concebido a partir da reforma de um pequeno sobradinho antigo e geminado, era um desafio. ‘’Precisava acomodar confortavelmente 12 funcionários, abrir espaço para atividades culturais e performáticas, construir um depósito para material cênico, além de fazer um coffee lounge e uma salinha de descanso, tudo isso em um espaço de 80 metros quadrados’’, conta Mayene. A solução incluiu elementos como bancada de concreto, sótão, escada metálica vazada, edícula e paredes brancas. “Quando me perguntavam se o escritório seria realmente inteiro branco, eu dizia : ‘A arquitetura sim, mas as pessoas(cadeira e portas) são coloridas’”, brinca.

Matéria publicada em: Revista WISH CASA Maio de 2013 por Lili Carneiro 

Escritórios do Futuro Valorizam Encontros

Camaradagem e interação de grupos serão fundamentais, mostra pesquisa. Por Angela Klinke, para o Valor, de Zeeland (EUA)

Estudo classificou dez modos de trabalho em empresas, como o Plaza (foto), espaço para amenidades, com grande visibilidade do entorno, numa área de cruzamento de pessoas.

O “stop” do “home office” anunciado em fevereiro pela CEO do Yahoo, Marissa Mayer, foi um alento para os fabricantes de móveis corporativos. Quando uma empresa de tecnologia no domínio do virtual e da mobilidade aponta que é mais produtivo os funcionários voltarem para os escritórios, ela sinaliza para os demais setores a retomada estratégica do espaço físico.

A americana Herman Miller nem contava com essa ajudinha quando montou um grupo de estudos envolvendo especialistas em quatro continentes para discutir como imaginam o ambiente de trabalho até 2018. Ela já tinha adotado como diretriz para os próximos cinco anos domesticar onde se ganha o pão, ou seja, transformar o “office” num “living”. E foi essa proposta que apresentou na feira mais importante do setor, a NeoCon, em Chicago, em junho.

O mobiliário que era feito para suportar a tecnologia e funcionários com caras enterradas nas telas agora precisa lidar com pessoas com a informação em suas mãos. O que antes era secundário no trabalho – como “camaradagem, conexão, interação espontânea e expressão em grupo” – tornou-se fundamental. Gente é mais importante que cadeira, ainda que seja ergonômica.

Apostar no design não só para ser contemporânea, mas para alcançar o futuro, tem sido a motivação da empresa com uma origem improvável. O fundador, D.J. de Pree, abstêmio e cristão praticante, colocou o nome de seu sogro na empresa em homenagem à sua retidão moral. A fábrica, que começou fazendo mobiliário residencial, foi erguida há 108 anos em Zeeland. Trata-se de uma cidadezinha localizada em Michigan, a três horas de Chicago e tão conservadora que só há pouco mais de dez anos liberou a venda de álcool. Criada no século XIX por religiosos vindos da Holanda, o lugar tem moradores que até hoje não aceitam quem trabalhe no domingo. E apontam na rua o vizinho que ousa macular o dia sagrado de descanso.

Um dos méritos de De Pree foi sempre cercar-se de gente criativa, que fez a diferença na construção da marca, como George Nelson, que colocou a companhia conectada com o design internacional e fez a guinada para o mercado corporativo; o casal Charles e Ray Eames, que buscava a viabilidade econômica de suas peças e criou ícones do século XX, como a “chaise” que leva o nome da dupla. A empresa tem um hotel particular, o Marigold, em que reúne essas criações nas áreas sociais para mostrar a consistência de sua história para os clientes. De qualquer forma, a premissa do fundador se mantém viva até hoje. “Ninguém sabe quem são os designers da Apple. Aqui nós celebramos o design”, diz Gary Smith, diretor de novos produtos da companhia.

As casinhas fofinhas nas ruas certinhas de Zeeland correspondem à caricatura de cidade americana do interior suspensa no tempo. Por isso, ao vencer a porta do “prédio do design” da Herman Miller, um mundo organizado para o século XXI emerge. As soluções que eles investigam estão ali integradas na rotina de seus funcionários. Logo na entrada, o cartão de visitas é um imenso balcão no espaçoso edifício térreo. Ali uma moça sorridente tira espressos de verdade (produto raro na cidade). Jarras com águas aromatizadas estão disponíveis para quem quiser se servir. E o cidadão pode se abanquetar, apoiar seu laptop e morder um sanduíche sem se sentir um workaholic por comer em cima do computador. O lugar é sedutor e prazeroso. Mas, pera lá, também não é Paris. É um “fast-relax”.

A dupla de designers Sam Hecht e Kim Colin, que participou da pesquisa.

Ao redor há as mais diferentes composições de ambiente de trabalho. Mesas com tampos que sobem e descem e que podem se transformar em balcão, estação para laptops para grupos de três ou cinco pessoas, sofazinho que também é cadeira de trabalho, cabine para chamadas telefônicas que exigem discrição. Nas paredes, frases inspiradoras dos designers que fizeram a fama da companhia. “Bom design, como boa pintura, cozinha, arquitetura e qualquer outra coisa que você goste, é a manifestação da capacidade do espírito humano de superar as limitações” – frase de George Nelson, diretor de design da companhia entre 1947 e 1972.

Na sala que exibia a inscrição “pessoas + pedagogia + lugar= possibilidades”, um grupo de executivos dividiu-se na tarefa de apresentar as premissas que levaram à nova “solução” corporativa na qual aposta a Herman Miller, o Living Office. O entendimento é que para conquistar a nova geração e mantê-la no escritório, o espaço precisa ser não só adequado à forma de trabalhar, em especial no modelo colaborativo, mas traduzir emoções e expectativas de quem o usa. Não se trata mais de estações, mas de “atitudes de trabalho”.

Foram necessários verdadeiros resgates psicanalíticos e investigações sociológicas para se montar os cenários que permitiram a criação do conceito Living Office. Afinal, o ambiente corporativo tornou-se fundamental não só na produtividade, mas no engajamento e criatividade dos funcionários. Agora, imagine a amplitude de possibilidades incorporando as realidades da China, da Índia ou da Austrália.

No processo de concepção, que teve como base mais de dois anos de pesquisas em vários países, inclusive no Brasil, a Hermann Miller também investigou o ponto de vista das empresas e chegou a resultados “dramáticos” de mal aproveitamento das áreas, como mostra seu dossiê: “Normalmente os escritórios particulares estão com espaços ociosos 77% do dia, enquanto as estações de trabalho estão desocupadas 60% do expediente; salas de conferência raramente são usadas em sua capacidade total e as pessoas escolhem espaços ‘sociais’ em detrimento de áreas menos sociais”.

Para ocupar de forma mais eficiente as superfícies das corporações, o grupo de pesquisadores fez um raio X e identificou etapas do trabalho individuais e em grupo. Por exemplo, o estágio “drive” é quando o funcionário lida com e-mails, telefonemas e mensagens de texto no decorrer do trabalho. O “contemplate” é o momento em que precisa se desconectar das distrações, não sendo visto nem exposto a barulho. Ele precisa relaxar e pensar, refletir e explorar, dar um tempo e se reernergizar.

A etapa “quick chat” é quando há uma questão rápida para ser respondida, que precisa envolver um grupo, mas que poderia incomodar os demais. O “divide and conquer” define a situação em que, para se realizar uma tarefa, há uma divisão de funções, em que os envolvidos se sentam próximos, trabalhando para o mesmo objetivo e fazendo sua parte individualmente. E por aí vai.

A cadeira Mirra 2, da marca Herman Miller, que possui um encosto mais ergonômico e será lançada em outubro.

Com essas caracterizações, eles elaboraram os dez modos de trabalho que se repetem em escalas e situações diferentes dependendo do negócio e do setor de atuação da empresa como, por exemplo, Haven (espaço para uma ou duas pessoas, isoladas e com baixa carga cognitiva); Meeting 3.0 (4 a 15 pessoas, maioria sentadas, isoladas ou semi-isoladas, com um ponto focal); Plaza (espaço para amenidades, com grande visibilidade do entorno, numa área de cruzamento de pessoas).

Para cada um há uma ambientação condizente. Um sofá com uma mesinha na frente pode dar conta de uma reunião rápida e informal. Acople na mesma superfície um apoio para laptop, com espaço para apenas uma pessoa sentar. E está criado um posto só para checar e-mails antes de se correr para o almoço ou uma reunião, sem que seja preciso voltar ao departamento de origem.

O Living Office é apresentado como “solução holística”. E um dos aspectos do lançamento é que a Herman Miller passa a oferecer para as companhias o diagnóstico customizado desses modos de trabalho. “Muitas vezes as salas de reuniões podem dar lugar para modelos mais flexíveis e mais acessíveis”, diz Katie Lane, diretora de desenvolvimento de produtos.

Para responder ao desafio dos novos cenários, a empresa reuniu um grupo bem distinto de designers. Yves Behar criou a linha Public Office Landscape, cuja proposta é manter o escritório em estado de fluxo. Trata-se de um sistema de componentes que podem ser montados em superfícies lineares, com espaços individuais e coletivos em sequência. O Studio 7.5, de Berlim, propôs o Metaform, uma coleção de blocos, como um grande Lego corporativo, de fácil montagem, com displays para deixar tudo a mão, permitindo o ajuste de telas e tomadas. A dupla Sam Hecht e Kim Colin projetou o Locale, que propõe um ambiente com “vizinhança dinâmica”, ou seja, móveis que acomodam vários colaboradores e convidam a interação.

“Às vezes, a organização é culturalmente favorável à colaboração, mas o espaço é um obstáculo”, diz Brian Green, pesquisador que conduziu o estudo junto a empresas como IBM e Google, entre outras. Mas, ao mesmo tempo, não adianta a corporação investir numa ambientação que aproxime as pessoas, buscar soluções tecnológicas sob medida se a “cultura organizacional” não estiver em sintonia como esse modelo de “trabalho camarada” dos novos tempos.

A repórter viajou a convite da Herman Miller.

Matéria publicada no jornal Valor Econômico em 7 de agosto de 2013

Arquitetos Criam Espaços Confortáveis

betty_birgerUma mesa de snooker em plena sala de reuniões, um piano ou um violão ao lado do café, equipamentos esportivos estrategicamente colocados em algum canto: houve um tempo em que as organizações faziam de tudo para segurar seus colaboradores o máximo possível no local de trabalho.

Resultado: 12, 14 horas seguidas no mesmo lugar, com as mesmas pessoas. E uma rotina estressante que comprometia a produtividade e em nada impulsionava a criatividade.

“Esse foi um momento em que a tendência era desfrutar das horas livres na própria empresa. Mas o feedback que temos das pessoas que transitaram por esse tipo de ambiente é que elas desenvolveram problemas psiquiátricos”, diz a arquiteta Patrícia Anastassiadis.

A tendência atual é achar um meio termo: “A virtude está no meio. De nada adianta reter o empregado por mais tempo se de tanto permanecer num ambiente quase artificial ele não consegue mais render. É importante promover uma integração saudável”, diz.

Em se tratando de ambientes fechados, como as salas de reunião, tudo leva a crer que eles estão longe de ser abolidos: “No Brasil”, diz a arquiteta Betty Birger, “sala de reunião é cultural, é preciso preservar as salas fechadas onde se tratam assuntos privativos”, explica, lembrando que “o grande problema é como resolver na planta a maneira como esse tipo de ambiente vai interagir com os demais”.

Além disso, justifica Betty, há outro problema: “As organizações têm grande preocupação com o metro quadrado de locação, muito caro. Por isso, a ordem é adensar o espaço. Explica-se que o mesão se tenha transformado numa forma de alocar os trabalhadores. E como não há espaço para interação, daí a necessidade das salas de reunião.”

Premidos entre a necessidade de estimular a interação entre os quadros e observar algum rigor hierárquico, os arquitetos apostam em dois conceitos: a sinergia visual e o conforto acústico. Para tanto, têm garimpado materiais que deem uma sensação de proximidade e acesso, apesar da pré-delimitação de nichos e, ao mesmo tempo, garantam a privacidade.

Existe um material, segundo Patrícia, que se presta a essas diretrizes: o vidro. “Ele permite ao mesmo tempo transparência e privacidade. Simplesmente fechando os vidros, uma sala de espera pode se transformar em uma sala de reunião”, exemplifica Betty Birger.

Outro conceito importante, segundo ela, é democratizar a paisagem e a luz do dia, sem abrir mão dos espaços multiuso: “A divisória não vai ser abolida, mas pode ganhar novos usos, como se tornar um ambiente para troca de ideias.”

Outro problema que se coloca em decorrência do adensamento do espaço é o conforto acústico. Para Patrícia Anastassiadis, “o problema se resolve com o uso de placas acústicas, que garantem a qualidade do som, apesar dos ambientes abertos”. Essa é a proposta que apresentou à incorporadora BKO, que mudou de endereço em São Paulo.

“Ela nos procurou em busca de trabalhar de maneira mais integrada, uma vez que sua política é promover o relacionamento entre os colaboradores”, diz Patrícia. Os funcionários da BKO ocupavam dois andares num prédio – na parte de cima, ficavam a diretoria, vendas e marketing, enquanto o pessoal técnico e do financeiro estava alocado no andar de baixo.

Patrícia decidiu quebrar alguns paradigmas: idealizou uma recepção que não era recepção, mas “uma espécie de lounge com café e estantes de livros delimitado por vidro”, e apostou todas as fichas nos ambientes abertos e transparentes. Resultado: “Em poucos meses, notamos uma nítida mudança”, avalia Daniela Khzouz, analista de marketing da BKO.

Matéria publicada no jornal Valor Econômico em 26,27 e 28 de julho de 2013 por Marleine Cohen